Com gripe suína, Uribe apela à internet para manter compromissos

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da Ansa, em Bogotá (Colômbia)

O presidente colombiano, Álvaro Uribe, cumprirá seus compromissos de governo via internet pelo menos até a próxima quarta-feira (2). O presidente foi diagnosticado com a gripe suína, denominada oficialmente gripe A (H1N1), depois de um encontro com os outros onze líderes da Unasul (União das Nações Sul-Americanas) –incluindo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Segundo a imprensa local, Uribe deverá resolver parte dos assuntos internos se comunicando por meio da internet, de seu BlackBerry, e do telefone fixo de seu gabinete no Palácio de Nariño (sede da Presidência), onde está de repouso.

Alejandra Bartoliche-28ago.09/Reuters
O presidente colombiano, Álvaro Uribe, na chegada à reunião de cúpula da Unasul que aconteceu na cidade argentina de Bariloche
O presidente colombiano, Álvaro Uribe, na chegada à reunião de cúpula da Unasul que aconteceu na cidade argentina de Bariloche

Caso sinta-se disposto fisicamente, Uribe poderá participar ainda de eventos e reuniões por meio de videoconferências, a fim de evitar que outros funcionários do Executivo do país corram riscos de serem contaminados.

De acordo com a Presidência, Uribe foi examinado na sexta-feira passada, assim que apresentou sintomas da doença durante a viagem de volta à Colômbia, após o encontro da Unasul, realizado em Bariloche, na Argentina.

Em decorrência disto, o governo colombiano enviou uma mensagem aos outros 11 líderes que participaram do evento, para que estes “tomem as medidas correspondentes”.

A reunião, realizada em caráter de urgência, tinha como objetivo discutir o acordo militar entre EUA e Colômbia, que permitirá o envio de até 1.400 efetivos norte-americanos a bases colombianas. Contudo, terminou sem um consenso e o tema passará a ser analisado pelo Conselho Sul-Americano de Defesa.

Uribe é o segundo chefe de governo a ser diagnosticado com o vírus da gripe A. Antes, a Costa Rica confirmou que o presidente Oscar Arias estava com a doença. O costa-riquenho já se recuperou.

O presidente equatoriano, Rafael Correa, chegou a ficar em observação por alguns dias e viajou a Cuba para realizar uma bateria de exames, a convite do governo da ilha. Três dos funcionários da presidência do Equador foram contaminados.

O jornal colombiano “El Tiempo” informou, citando dados do Instituto Nacional de Saúde (INS), que Uribe é a 621ª pessoa no país diagnosticada com o vírus da nova gripe. A publicação também ressalta que a equipe médica responsável pelo tratamento do presidente garante que seu quadro de saúde não é grave. Neste domingo, ele já apresentou melhoras.

Twitter serve de bússola na noite paulistana

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ANA PAULA BONI
da Revista da Folha

Revista da Folha Quando a banda curitibana Los Diaños tomou o palco da casa noturna Astronete, no Baixo Augusta, em 17 de julho, na plateia tinha início também um outro tipo de show.

O astro, no caso, era o publicitário Leandro Rossi, 25. Com seu iPhone na mão e conectado à internet, ele fazia a noite acontecer no Twitter, em tempo real. Desde o início da balada, o publicitário ia postando algumas impressões em sua página no microblog que virou febre no mundo todo.

Paulo Pampolin/Folha Imagem
Publicitário Leandro Rossi "tuíta", 25, do Genial, no bairro da Vila Madalena
Publicitário Leandro Rossi “tuíta”, 25, do Genial, no bairro da Vila Madalena

Seus 257 seguidores –como são chamadas as pessoas que formam as redes de relacionamento do Twitter– acompanham tudo lendo os registros a partir do computador ou do celular.

Na mira do publicitário está a turma de amigos que tem um ponto de encontro virtual na página La 44 da rede. Ali, eles podem decidir a programação da noite ou do fim de semana.

La 44 é o apelido dado à casa onde Leandro mora com dois amigos, outro publicitário, Rafael Williams, 27, e um jornalista, Rafael Takano, 23. Os três têm páginas pessoais no microblog, mas preferem “tuitar” –verbo instituído pelos usuários– das baladas direto para esse endereço comum.

Esse uso do Twitter na e sobre a balada é uma das formas de relacionamento na rede social. “Os usuários perceberam que a ferramenta tinha muito mais potencial do que imaginavam”, afirma José Calazans, analista de mídia do Ibope Nielsen Online. “Assim, há quem use como distribuidor de links ou até para bate-papo. E um dos usos é para maior socialização.”

Além da ideia de ver e ser visto, o “tweet” (como se chama a mensagem escrita no site) na balada tem ao menos duas vantagens, explicam os “tuiteiros”: alcançar o maior número possível de usuários e não incomodar ninguém com um telefonema ou um torpedo no meio da noite.

Atingir vários amigos ao mesmo tempo significa mais chances de ter algum retorno naquela noite -e eliminar a hipótese de levar um “não” de alguém específico. “O Twitter diminui a chance de a mensagem ser descartada”, afirma Rafael Mendonça, planejador da consultoria CO.R Inovação. “Às vezes você manda um torpedo para alguém que não está a fim de sair, e a mensagem está perdida.”

Sem falar no efeito surpresa: “Você manda o ‘tweet’ e não imagina quem entre seus seguidores vai aparecer na balada. De repente, chega alguém”.

Leandro e companhia não param de “tuitar”. Perceberam o potencial do Twitter e a mobilidade que ganham com um celular conectado à internet em situações como a vivida em março deste ano, na véspera do St. Patrick’s Day. Diretamente de pubs da cidade, eles turbinaram a comemoração com um diário da peregrinação.

Além de escrever, os “tuiteiros” publicam fotos diretamente dos bares e casas noturnas. Fica registrado em imagem o que está rolando de melhor por onde passam. E, claro, o de pior.

Essa ideia de usar o site de qualquer lugar à noite caiu tanto nas graças dos usuários que uma empresa abriu os olhos para o filão. A Matizar resolveu criar um site similar só para os frequentadores de baladas de São Paulo e do Rio.

“É um mapa em tempo real do que está acontecendo de bom nas duas cidades. Foi pensado como ferramenta indispensável para sair à noite”, explica o diretor de mídias interativas, Nathaniel Leclery. A página, www.ubizu.com.br, deve ser lançada em outubro.

Enquanto isso, a empresa está no processo de seleção de seus 40 “repórteres da noite” em São Paulo, que vão dar o pontapé inicial no site. É gente viciada no trio celular + noite + Twitter, para indicar os melhores lugares da cidade.

A estudante de designer gráfico Svetlana Bianca, 20, 165 seguidores, não tem qualquer relação profissional com o Twitter, mas fez da rede um importante elemento de sua movimentada vida social. Antes de sair de casa para ir aos bares, onde faz o “esquenta”, Svetlana escreve do computador, como no dia 19 de agosto.

“Normalmente às quartas vêm os ‘tweets’ de balada, porque eu vou para a FunHouse. E muitos dos meus amigos também vão”, conta a estudante. Na casa noturna no Baixo Augusta, toda quarta-feira acontece a balada Funhell, liderada pelo DJ Fabrício Miranda. Também tuiteiro e divulgador da festa, claro.

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Felipe Manso, Monique Freitas e Svetlana Bianca na FunHouse, no Baixo Augusta
Felipe Manso, Monique Freitas e Svetlana Bianca na FunHouse, no Baixo Augusta

Em noitadas como essa, surgem as mensagens de Svetlana, que tem um HTC Touch. “O problema são os ‘tweets’ depois de beber umas tequilas.”

Simbiose

Mas por que tanta sintonia entre o telefone móvel e a rede social? A explicação está na própria origem do site, lançado em 2006. O limite de 140 caracteres digitados em cada “tweet” foi estabelecido tendo em mente o do torpedo de celular -160 caracteres. Assim, os usuários da rede social podem enviar mensagens do celular – mesmo a partir daqueles que não têm acesso à internet.

Hoje, no entanto, o cenário é diferente. Na era do “smartphone”, torpedo pode virar coisa do passado. Esse “celular esperto” –iPhone, Blackberry etc.– tem a tela e o teclado grandes, feitos para a navegação na rede.

Com um desses celulares com internet na mão, o serviço se torna completo. “O Twitter é a evolução do torpedo”, afirma Philip Klien, diretor de inovação da Predicta, consultoria especializada em marketing on-line. Afinal, mensagem de texto enviada pelo telefone é uma ação unilateral. Com internet no celular, há troca de informações. “Do bar, acesso a minha página e também posso ver o que meus amigos estão ‘tuitando’ naquele momento”, afirma o designer Márcio Villar, 32, 115 seguidores, dono de um iPhone.

“No site, não escrevo para alguém específico, mas para todo mundo ao mesmo tempo. Eu falo para o vento”, diz Márcio. Em quase todas as suas mensagens, o designer inclui fotos, para tornar o convite mais apetitoso.

No primeiro “tweet”, a foto é de um copo de chope cheinho. No segundo, de um prato de canapés. A outra encerra a jornada no Bar Léo, no centro da cidade, mostrando o lado de fora do lugar, apinhado de gente. Em uma dessas “tuitadas” com foto, Márcio enviou uma imagem do chope que tomava no bar Filial, na Vila Madalena. E se surpreendeu: pouco depois apareceu um amigo, dizendo que tinha visto a mensagem direto do celular.

Seus seguidores podem se livrar de um telefonema ou de um torpedo na madrugada. “Acho meio chato ficar ligando para os amigos porque são vários. Também porque é invasivo ligar no meio da noite para dizer que a balada está boa”, diz Leandro, que chega a escrever uns oito “tweets” por saída.

Para ele, a comunicação não pode ser obrigatória. “A pessoa vai atrás das informações de quem quiser”, diz. “No celular, não. A pessoa pode estar dormindo, e você, bebendo do outro lado da linha.”

Slogan ao pé da letra

Paulo Pampolin/Folha Imagem
Márcio Villar, que encosta o carro para "tuitar" sobre blitze da lei seca
Márcio Villar, que encosta o carro para “tuitar” sobre blitze da lei seca

Os “tuiteiros” da balada seguem à risca o slogan do Twitter: “Compartilhar e descobrir o que está acontecendo agora, em qualquer lugar do mundo”. Antes, até julho deste ano, o lema da rede era “o que você está fazendo”. Isso significava (e ainda significa, em muitas páginas) mensagens ao estilo de blogs pessoais, nos quais as pessoas contam a vida como em um diário.

“Até deletei conhecidos da minha lista por escreverem bobagens que não acrescentam nada”, afirma Rafael Williams, 27, 250 seguidores. Ele é do time dos que usam o Twitter para congregar. E argumenta que é difícil ler, no meio da balada, as coisas mais interessantes no microblog, se elas estiverem em meio a várias outras escritas por quem “não tem o que dizer”.

No time das pessoas interessantes, há quem faça fama na rede e tenha uma legião de seguidores. Como Flávia Durante, 32, que tem 5.595. A jornalista e DJ se define como ativista cultural e usa o Twitter também para divulgar baladas.

Para aproveitar essa instantaneidade, aliada ao fato de “compartilhar o que está acontecendo agora”, os tuiteiros de balada se tornaram espécie de fiscais do trânsito… contra a lei seca. De bar em bar, eles tuitam do carro avisando onde está acontecendo alguma blitz.

Esse foi um dos muitos “avisos” de Márcio Villar para seus seguidores no Twitter, feitos no sábado 22 de agosto. São mensagens tecladas o mais rápido possível, logo depois de passar pela blitz. O celular é acionado assim que o carro encosta na rua ou para no estacionamento.

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No Rio, conta Philip Klien, carioca que mora em São Paulo, as blitze são tão mais presentes que os usuários escrevem no Twitter direto para o “trending topic” –uma espécie de subgrupo– chamado “bols” (blitz da operação lei seca).

O “trending topic” é criado pelos próprios usuários e facilita na pesquisa por tema. Ou seja, você pode entrar no Twitter, buscar todas as mensagens escritas para o “#bols” e saber onde estão acontecendo as blitze no Rio. “Você faz a busca específica em tempo real, na saída do bar. É uma forma de as pessoas se prevenirem, mesmo não sendo positivo, por burlar a lei”, completa Philip.

Com tantos usos e abusos, o Twitter virou um bom companheiro dos baladeiros conectados.

Cidades do interior têm internet gratuita no Brasil

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Em Mâncio Lima, cidade do Acre, na fronteira com o Peru, apenas 5% dos habitantes recebem água encanada em casa. Mas o morador que tiver um computador pode acessar a internet de graça pelo sistema sem fio instalado pela prefeitura no mês de maio.

Assim como o município de 13 mil habitantes do Acre, prefeituras de todo o país, especialmente de pequenas cidades, vêm se mobilizando para instalar sistemas gratuitos de internet para a população.

Fred Chalub/Folha Imagem
"Vila do Doce", em Ribeirão Pires, na Grande SP, possui sinal gratuito de internet; município tem 107 mil habitantes
“Vila do Doce”, em Ribeirão Pires, na Grande SP, possui sinal gratuito de internet; município tem população de 107 mil habitantes

A implantação do sistema já havia causado polêmica em grandes cidades na campanha eleitoral do ano passado, quando candidatos como Marta Suplicy (PT), em São Paulo, chegaram a prometer o acesso universal e gratuito à internet.

Em três cidades, os prefeitos aproveitaram as festas de aniversário do município para lançar os sistemas. Em Jaboticabal (SP), a prefeitura diz já ter investido R$ 1 milhão no sistema nos últimos quatro anos. Poços de Caldas (MG) gastou R$ 315 mil com o projeto.

Em Parintins (AM), de 102 mil habitantes e famosa por seu festival folclórico, a prefeitura instalou antenas em praças que permitem o acesso.

Segundo a administração municipal, a novidade atrai usuários com notebooks ao local. “Diariamente, umas 50 pessoas sentam na praça, levam suas cadeiras. Tem gente que começa a acessar às 7h da noite e sai às 3h da manhã”, diz Francisco Neto, coordenador do projeto. O mesmo ocorre em Manacapuru, também no Amazonas.

A prefeitura de Parintins gastou R$ 7.000 na importação de cada antena que possibilita o acesso. A mesma quantia foi paga em Mâncio Lima. Segundo a chefe de gabinete, Maria Ivete Pinheiro, havia muita demanda por internet na cidade.

Em parte das cidades, há restrições para conteúdos considerados inadequados, como sites eróticos. Rio Verde (GO), que iniciou o serviço no início do mês, veta o download ilegal de músicas e filmes.

Para o sociólogo Sérgio Amadeu, que é doutor pela USP e pesquisa inclusão digital, o modelo adotado pelas prefeituras no Brasil é adequado para pequenas cidades. Ele afirma que, em levantamento com municípios que adotaram o sistema, mais moradores acabaram comprando computadores.

Diz ainda que, em cidades carentes, a implantação da internet gratuita “é uma forma de romper a reprodução da miséria” e pode gerar empregos.

Subutilizado

Pouca gente parece saber, mas quem vai à praça central de Ribeirão Pires, na Grande São Paulo, pode acessar a internet sem pagar nada. O local, conhecido como “Vila do Doce”, com cafés e bares, é uma espécie de ponto de encontro da cidade. E com conexão gratuita à rede.

A prefeitura do município, de 107 mil habitantes, investiu R$ 140 mil para inaugurar no ano passado o ponto de acesso. O vendedor André Rodrigues, 30, trabalha nas proximidades da vila e se acostumou a aproveitar a conexão livre em seu BlackBerry. “Facilita. Se precisar, [a qualquer hora] dá para mandar um e-mail”, diz. Ele reclama que a rede é instável e, às vezes, não é detectada.

Parte dos comerciantes e funcionários que trabalham na praça, porém, desconhecem a existência do sistema. A Folha esteve na praça na tarde da última sexta-feira e não havia moradores aproveitando o acesso à internet.

Questionadas pela reportagem, a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) e o Ministério das Comunicações disseram que não tinham como informar quantas cidades já lançaram esse tipo de serviço em todo o país.

Em Tibagi (PR), o prefeito Sinval Silva (PMDB) diz que a ideia de implantar o acesso à rede é auxiliar quem não tem dinheiro para pagar provedor.

“O cidadão pode comprar o computador. Para ele ter um sinal, precisa ter um telefone fixo. Somando, ele vai ter que pagar R$ 150 por mês para a companhia telefônica. Nós queremos fornecer isso gratuitamente. E ele vai utilizar os R$ 150 para fazer outra coisa, até para pagar a prestação do computador.”

Nos EUA

Cercada de polêmica, a implantação de sistemas de acesso gratuito de internet nos Estados Unidos não foi bem-sucedida em algumas cidades.

Em San Francisco, Chicago e na Filadélfia, problemas nas parcerias privadas que sustentavam os projetos nos últimos anos acabaram provocando o fim da experiência.

O modelo é criticado por representar uma ação estatal em uma área tradicionalmente regida pela iniciativa privada. Os defensores da política dizem que ela beneficia localidades que não seriam atendidas pelo sistema convencional.

Polícia começa a mudar de cara no Rio

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Com fama de durão, novo chefe colhe elogios até entre adversários

Allan Turnowski, de 39 anos, assumiu a chefia da Polícia Civil no Rio há três meses e meio. Chegou com a fama de policial durão, matador. “Matador, não”, reage. “Sou rígido. Vou até o fim nas minhas operações. Se um bandido atira em um policial vai tomar tiro até largar o fuzil”, avisa. Turnowski virou chefe fazendo barulho.

Vinte dias depois de assumir, prendeu Ricardo da Cruz Teixeira, o Batman, líder de uma poderosa milícia. Na operação, não foi disparado nenhum tiro graças às informações da missão suporte que Turnowski montou só para investigar milícias. Um mês depois, a Polícia Civil resolveu também o caso de Patrícia Franco, engenheira de 24 anos morta há um ano. O que parecia ser um acidente de carro fatal acabou se revelando um assassinato provocado por policiais militares durante uma falsa blitz. Os PMs estão presos.

A resolução dos dois casos, graças ao trabalho de investigação e inteligência, deu prestígio a Turnowski. “Ele está sendo uma surpresa”, admite a cientista social Sílvia Ramos, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Candido Mendes, que sempre criticou a política de segurança baseada no confronto. “O Rio vive um momento de esperança. Ainda não dá para comemorar porque temos muito trabalho pela frente.”

O secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, já vê sinais de mudança. “O Allan é uma pessoa preparada, com experiência reconhecida pelos seus subordinados. Ele apresentou um projeto viável para a Polícia Civil. Hoje, há uma nítida mudança administrativa.”

O maior desafio de Turnowski agora é convencer a sociedade. Quer acabar com a fama de corrupta e ineficiente que a polícia tem entre boa parte dos cariocas. Primeiro, ele mesmo admite, tem de aumentar a eficiência da polícia e reduzir os índices de violência, hoje em patamares altíssimos. De março a maio, o Rio teve 1.652 homicídios e 7.214 roubos de veículos. As ações policiais, civis e militares, deixaram 285 mortos em confronto nas comunidades.

Seu plano de ação começa pela mudança de escala do trabalho. Vai acabar com os plantões de 24 horas com descanso de 72 horas. “Policial vai trabalhar de segunda a sexta, investigando. Não quero desculpas para não atingir as metas. Se o policial não pode atender todo mundo bem na delegacia, que atenda pelo menos cinco pessoas muito bem. Pelo menos essas cinco vão falar bem da gente.”

Turnowski conhece bem o preconceito que a polícia enfrenta. Judeu, filho de uma família tradicional de advogados, só estudou em boas escolas. Foi surfista. Disputou torneio de futebol, natação e jiu-jítsu. Aos 23 anos, formado no prestigiado curso de Direito da Universidade do Estado do Rio, foi trabalhar no escritório de advocacia do pai. Ganhava bem, morava na Barra, tinha carrão, pegava onda na praia. Um vidão. Mas achava o trabalho chatíssimo. “Era muito papel. Já fiz Direito pensando em ser delegado.”

A notícia foi um choque. O pai detestou, os amigos acharam tão esquisito que foram se afastando. Não havia muito o que fazer. “É uma questão de vocação. Para ser um bom policial tem de ter polícia no sangue.” Turnowski é movido a adrenalina. Adora participar de operações policiais. Liderou uma equipe na famosa invasão do Complexo do Alemão, em 2007, quando 1.350 policiais cercaram o conjunto de favelas. Nas cinco horas de tiroteio morreram 19 pessoas. “Todos eram bandidos”, jura. E bandido tem de morrer? “Se alguém te dá um tiro, é legítimo revidar. Não me peça para hesitar e morrer na mão de traficante.” Não foi o que acharam grupos de direitos humanos que protestaram contra a polícia na operação do Alemão. “O que dói depois desses combates é sair da favela e, em vez de ser considerado um herói, ser chamado de assassino por alguém de direitos humanos.”

O discurso está mudando. Turnowski corteja as organizações de direitos humanos que sempre o atacaram. Até já admite que elas têm o seu papel. “Quando entrei na polícia via direitos humanos como uma coisa parcial. Os caras ganham dinheiro de uma ONG para fazer isso, vão parar de fazer por quê? Hoje não. Acho que essas organizações podem ajudar a manter a polícia no padrão da lei, evitando excesso.” Na tarde de sexta-feira, Turnowski recebeu a socióloga Julita Lemgruber em seu gabinete. Os dois sempre estiveram em lados opostos. “Vamos discutir um projeto”, disse Julita.

Sílvia Ramos também trabalha em um projeto em parceria com a Polícia Civil. É o Papo de Responsa, junto com o AfroReggae. Uma dupla formada por um ex-bandido e um policial vai percorrer as escolas públicas falando sobre suas experiências. “Ou o Allan Turnowski mudou muito ou nós estávamos errados quando criticávamos ele”, admite Sílvia.

Pelo menos no discurso e na aparência, Turnowski mudou. Trocou a roupa preta pelo terno. O fuzil pelo celular BlackBerry. A favela pelo escritório com ar-condicionado. Mas, admite, sente falta da adrenalina. Não sabe quanto tempo vai levar essa vida de gabinete. “O cargo de confiança é como videogame. Se estou caminhando bem, vou acumulando vidas. A cada besteira, vou perdendo essas vidas. Até que um dia me mandam embora.”